Baterias de lítio no transporte marítimo: entenda os riscos

Quando se fala em transportar baterias de lítio, é comum imaginar caixas contendo baterias como produto principal. Mas elas estão presentes em uma quantidade cada vez maior de mercadorias: notebooks, ferramentas, equipamentos eletrônicos, instrumentos de medição, brinquedos, bicicletas elétricas, máquinas e diversos outros produtos.

E é justamente aí que existe um ponto de atenção para importadores e exportadores.

A bateria pode não ser o produto que está sendo comercializado, mas continua fazendo parte da carga.

No transporte marítimo internacional, células e baterias de lítio, inclusive quando instaladas ou embaladas junto a equipamentos, estão contempladas pelo IMDG Code, o Código Marítimo Internacional de Mercadorias Perigosas. Dependendo da química, configuração, capacidade e demais características, entram em classificações específicas, como UN 3480 e UN 3481 para baterias de íon-lítio.

Por que esse assunto voltou ao centro das discussões?

Uma das questões atualmente discutidas pela indústria está na Special Provision 188, ou SP188, que permite que determinadas baterias menores, quando cumprem requisitos específicos de teste, capacidade e embalagem, sejam transportadas com requisitos reduzidos.

O problema identificado pelo World Shipping Council é outro: milhares de baterias individualmente enquadradas nessa condição podem estar concentradas em um mesmo contêiner sem que o nível de risco agregado fique suficientemente visível para toda a cadeia de transporte.

O WSC classificou essa situação como uma lacuna de segurança e levou o assunto para discussão na IMO. A preocupação é aumentar a visibilidade e a rastreabilidade dessas cargas e permitir que transportadores, terminais e equipes de emergência saibam efetivamente o que está dentro de cada unidade de carga.

E os números ajudam a explicar essa preocupação.

Segundo o Safety and Shipping Review 2025, da Allianz Commercial, foram registrados 250 incidentes de incêndio em embarcações em 2024, o maior número da década. Desses, 69 ocorreram em navios de contêineres, carga ou ro-ro. A seguradora também aponta que mais de 100 perdas totais de embarcações foram causadas por incêndios ao longo dos últimos dez anos. Esses números abrangem diversas causas, não apenas baterias, mas a Allianz destaca cargas declaradas incorretamente e o crescimento do transporte de baterias de íon-lítio entre as principais preocupações atuais.

Quando uma declaração incorreta deixa de ser apenas um problema documental

Em janeiro de 2020, um incêndio a bordo do Cosco Pacific foi atribuído a uma carga de baterias de lítio declarada incorretamente como “peças e acessórios”. O navio precisou desviar sua rota para Colombo, no Sri Lanka. O caso se tornou um dos exemplos mais claros de como uma descrição inadequada pode impedir que uma carga receba o tratamento operacional compatível com seu risco.

Outro caso foi o Genius Star XI, em dezembro de 2023. Após investigação, o National Transportation Safety Board dos Estados Unidos concluiu que unidades de sistemas de armazenamento de energia com baterias de íon-lítio se deslocaram dentro do porão durante condições meteorológicas severas. O dano estrutural levou baterias de três unidades a entrarem em thermal runaway, provocando dois incêndios. Os prejuízos foram estimados em US$ 3,8 milhões.

O que o importador e o exportador precisam observar?

Antes do embarque, não basta perguntar apenas “qual é o produto?”. É preciso entender também o que existe dentro dele.

É importante verificar, entre outros pontos:

  • se o equipamento contém bateria;
  • qual é a tecnologia da bateria, como íon-lítio ou lítio metálico;
  • sua capacidade e especificações;
  • se está instalada no equipamento, embalada junto a ele ou sendo transportada separadamente;
  • a documentação e os testes aplicáveis, incluindo os requisitos do UN 38.3;
  • qual enquadramento do IMDG Code se aplica à operação e se existem condições ou exceções específicas, como a SP188.

Há uma ressalva importante: nem toda pequena bateria enquadrada na SP188 exige hoje uma declaração completa de Dangerous Goods. É exatamente essa menor visibilidade que está sendo debatida internacionalmente. Portanto, enquadramento simplificado não deve ser confundido com desconhecimento sobre a existência da bateria.

Para quem importa ou exporta, a qualidade da informação fornecida antes do embarque faz parte da gestão de risco.

Declarar corretamente uma carga não é apenas cumprir uma exigência documental. É permitir que transportadores, terminais e toda a cadeia logística possam tomar as decisões adequadas de aceitação, acondicionamento, estocagem e resposta a emergências.

Na Inova Services, acompanhamos mudanças regulatórias e temas que podem impactar diretamente as operações de comércio exterior. Em nossa assessoria logística, cada operação é analisada considerando suas características, riscos e exigências, buscando junto aos parceiros envolvidos a alternativa mais adequada para cada embarque.

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Porque, no comércio exterior, um detalhe que não aparece na descrição comercial do produto pode fazer toda a diferença durante o transporte.

Fontes utilizadas

International Maritime Organization (IMO): IMDG Code e agenda do CCC 12.
World Shipping Council: Batteries – SP188 Exemptions in Containerized Transport, setembro de 2026.
The Loadstar: WSC backs calls to IMO on labelling lithium batteries ‘dangerous goods’, 10 de setembro de 2026.
Allianz Commercial: Safety and Shipping Review 2025 e materiais sobre riscos de baterias de íon-lítio no transporte marítimo.
National Transportation Safety Board: investigação do Genius Star XI.

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